Era
22 de março de 2008. Um sábado. A moça acordou cedo e foi trabalhar. Dia
estafante. Chegou tarde em sua casa, contudo ela resolveu aproveitar a noite. A
cidade estava em festa e, na semana seguinte, ela propendia se despedir, pois
havia conseguido obter nota suficiente para ingressar numa universidade
federal. Foi a primeira de uma família numerosa a alcançar tal feito.
Seu
semblante era alegre, mesmo estando exausta. Trabalhara em pé o dia todo.
Malmente se alimentou. As pernas latejavam. Marcou com uma amiga, escolheu um
vestido leve, um pouco acima dos joelhos, selecionou uma sandália de salto
confortável e saiu para se divertir. Lá, encontrou outros amigos e familiares,
dançou e espaireceu.
Não
passou muito tempo e seu pai chamou-a para irem para casa. Ela, preocupada em
encontrar alguém confiável para levar sua amiga que morava distante, mesmo seu
corpo desejando descanso, preferiu ir em seguida, afinal, residia muito próximo
ao local da festa.
Não
demorou trinta minutos. Misturou-se a um grupo de pessoas que também retornava
e seguiu adiante. Olhou para trás. Havia um moço caminhando de modo estranho.
Ela seguiu seu caminho, agradecida por haver mais gente.
Numa
esquina, ela um pouco mais a frente, viu as pessoas seguirem um rumo díspar do
seu. Uma aflição tomou conta de si. Resolveu apressar o passo. Num rompante,
olhou para trás. Apenas ela e o homem estranho caminhavam naquela rua deserta.
Havia certa distância, porém sentia em seu íntimo a necessidade de
correr.
Suas
pernas doíam e tremiam tanto! Abaixou-se, retirou a sandália, contudo não havia
mais para onde fugir. O homem estranho, que estava a metros de distância, a
alcançou num piscar de olhos, a segurou firme, colocou a mão direita em sua
boca e a ameaçou de morte. Ela tentou se defender, entretanto ele se esquivava
e começou a arrastá-la pelos cabelos para uma rua ainda mais deserta e
perigosa, enquanto ela tentava gritar. Seus gritos trépidos eram
praticamente inaudíveis.
Passados
alguns instantes, ouviu-se uma voz masculina, ao longe, ordenando ao homem
soltar a moça. Outras vozes se misturaram. Ele correu.
A
moça, com tufos de cabelos arrancados, rosto machucado, segurando uma alça do
vestido já descosturada, conseguiu entrar em sua casa sem que o pior ocorresse,
graças a ajuda dos vizinhos.
Durante
dias, foi o assunto da cidade. Inúmeras eram as versões da história:
-
Deu ousadia!
-
Também, com aquele vestido!
- Se
fosse eu, tinha batido!
- Foi
o namorado!
-
Isso que dá arrumar homem estranho em festa!
-
Bem feito!
-
Não se deu o respeito!
-
Claro que ela sabe quem é. Eu reconheceria!
No
final das contas, a vítima foi considera culpada pelos juízes de plantão. Toda
sua dor era reverberada a todo o momento ao notar os olhares de culpa e de
pena. Seu coração sangrava e poucos eram os que realmente se importavam.
Ela virou estatística e sabia que, infelizmente, não foi a única e nem seria a
última.
Luzitânia Silva