Moça, respire, acalme-se, ele
já passou pela porta. Escutou a batida forte? E os murmurinhos? Então, ele se
foi. Não se preocupe mais. Não agora. Ele está na estrada. Ouviu o ronco do
motor?
Tem gente lá fora, percebe?
Sei lá, os ânimos estão um pouco alterados ou as vozes estão confusas? Não
tenho ideia, moça, só quero olhar para você. Saia daí desse chão frio, pode
ficar resfriada. Levanta, vai, tenha forças! Não vá se perder olhando a janela
depois, com pesar. Também não se confunda com um móvel de sua casa. Toma uma
atitude, grita, sei lá. Pode chorar, moça: de alegria, por favor.
Imagino como deve ser
difícil para você estar aí, desse jeito, sozinha, mas pense bem, talvez seja
melhor. Ele seguiu seu rumo, saiu sem dizer adeus, contudo deixou marcas, não
foi?
Quer uma água? Não consigo
olhá-la desse jeito sem poder fazer nada, entende meu lado? Seu olhar e
pensamentos estão longe... Preocupo-me com você.
Tá doendo? Seu coração
parece que vai saltar pela boca. Não se aflija. Levanta daí! Acho que um dia
vai passar, não vai? É assim mesmo, não é?
Moça, tem um corte em seu
braço, repara. Não. São dois, três, quatro... perdi a conta. Seu sangue escorre
(só agora percebi!).
Olha para mim? Seu olhar
está longe, fixo em algo que não sei dizer. Nem pisca. Sua pele está gélida.
Não creio, moça, que vai
partir assim. E seus anseios? E a casa que acabou de adquirir? E a faculdade
que concluiu? E o sonho de viajar pelo mundo? Suas aspirações foram engavetadas,
moça, e agora não há mais o que fazer. Vá em paz.
(Luzitânia Silva)