quinta-feira, 29 de junho de 2017

O FIM

A vida está por um fio. Este é o seu último instante. Daqui a pouco poderemos ouvir seu último suspiro. Um sussurro interrompido. Uma frase inacabada. Um tenro adeus não dado. Uma alegria embalada na tristeza: e virse e versa.
Nenhum afago. No máximo um: “Eu te avisei”. Uma euforia ao longe. Um olhar incrédulo, triste: o último. Uma súplica delirante de ajuda. Um riso sarcástico. Do outro lado, um grito de dor. Um aperto no peito. Uma ânsia de vômito. Um coração dilacerante. Um arrancar de cabelos. Olhos esbugalhados. Um questionamento. O “por quê?” incontrolável. Nenhuma resposta!

O sangue escorre. Vermelho! A dor já não mais grita. O socorro que não chega. A companhia invisível. Os abraços já não dados. Os sorrisos inexistentes. As alegrias que se esvaem. Um filme na cabeça. Os “eu te amo” não dados. As promessas incompletas. Os bens não conquistados. O melhor que não ocorrerá. A (des)preocupação com o porvir alheio. A certeza estampada.  Sons de sirene. Burburinhos. O desespero da amiga do colegial. A tentativa de ressurreição. Olhos atônitos. O último sorriso (de dor, gratidão). Um olho que se fecha. Mais uma vida que se vai. Fim.


Amar à distância


(Luzitânia Silva)

Ela me perguntou um dia, olhando-me com curiosidade e excitação... Parecia uma garotinha questionando ao pai com aqueles olhos-azuis-inquisitivos-brilhantes o porquê de as estrelas estarem no céu, tão distantes e tão lindas. Ela fez a pergunta mais inusitada pra mim, no momento. Ela quis saber (pasmem!) como se ama à distância. Fiquei sem palavras por um instante. Talvez ela pensasse que eu não soubesse a resposta. Ledo engano. Eu sabia desde o princípio, apenas precisava achar as palavras adequadas para descrever...
Parei. Pensei. Era difícil explicá-la, contudo tão fácil e natural sentir. Fechei os olhos e notei seu olhar em mim. Experimentei desnudar um pouco de minha alma. Abri meus olhos e os direcionei a ela. Sua boca parecia seca e o olhar se encontrava apreensivo. Deixei as palavras escorregarem, saírem vagarosamente, como um bom vinho que deve ser degustado.
Falei a ela que amar, à distância ou de pertinho, é uma sensação indescritível. Qualquer um pode amar, é intrínseco ao ser, mas infelizmente nem todos deixam o amor ser revelado, nem todos sabem lidar com isso. Amar, quando se está próximo, pode parecer mais fácil (e é) quando há troca. Quando não há, o mundo parece desmoronar, os dias parecem menos tenros.
Quando se está longe é um pouco mais complexo, todavia se há reciprocidade é mais fácil suportar (porém não é tão fácil assim). Sente-se saudade quase o tempo todo (se não o tempo todo) da pessoa amada, das palavras, da companhia, do cheiro, do toque, da conversa, das coisas boas e não tão boas assim, como é o caso das briguinhas.
Quando está longe há uma predisposição maior a sentimentos mesquinhos como a inveja e ciúmes. Você passa a ter um sentimento de posse desnecessário, uma inveja e ciúme terrível (e completamente bobo) das pessoas que podem olhar o ser amado de pertinho, dar um “oi” despretensioso na rua, um aperto de mão, um abraço amigável, dirigir a palavra ou só vê-lo. É uma miscelânea de sentimentos e emoções que poeta nenhum consegue delinear. Amar alguém distante também propicia uma maior maturidade, onde a confiança passa a ser ainda mais importante, haja vista que se encher de caraminholas pode propiciar muita tristeza.
É algo para ser sentido com toda a pureza de alma, com toda entrega, com todo afeto possível. Ama-se à distância ou de pertinho com o coração, sem se apegar a minúcias, sem esquecer-se de se amar.

Ela me sorriu depois de minhas palavras, parecendo me entender. Não sei se a convenci, mas sei que o meu coração aquiesceu de tanto amor ao vê-la na webcam.