segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O musicista argentino




Era uma quinta-feira, o terceiro dia do mês de janeiro. Um dia magnífico e ideal para um bom banho de mar. Sentia-me atribulada com a volta para casa, afinal viver experiências é legal, mas cansa que é uma beleza! Sem contar o risco eminente de acidentes, em especial nesta época do ano.
Entrei numa embarcação e me acomodei ao lado de meu filho e minha irmã, priorizando, mentalmente, os pensamentos mais positivos possíveis e fazendo checklist das coisas que prometi realizar no novo ano que acabara de iniciar.
Avistei um moço sentado um pouco próximo a mim. Sorri por educação. Tratava-se de um argentino despojado, com cabelos encaracolados, desgrenhados e esvoaçantes. Lembrava-me um hippie.
Quando a embarcação partiu, ele começou a tocar sua flauta de forma desjeitosa, segundo o meu ouvido não tão apurado. Repentinamente parou, guardou o pequeno instrumento, pegou seu violão, se apresentou a todos os presentes e, com doçura, desejou a todos um excelente ano novo e uma feliz vida. Fazendo uso de palavras afetuosas, sobrelevou a importância do amor, de viver os momentos intensamente. Com sua alma aventureira, decerto entendia que dificilmente encontraria qualquer um de nós novamente.
O musicista dedilhou em seu instrumento uma canção argentina, saindo de sua boca palavras harmônicas e afáveis que tocaram profundamente o meu coração – e foi perceptível para ele. Em meio à música, ele parou por um instante e disse ter ganhado o dia por ter feito uma mulher e um menino sorrirem. A mulher era eu e o menino meu filho. Enrubesci no mesmo instante – meu filho também.
Em meio a tantas pessoas (que pareciam não se importar, diga-se de passagem), pude notar o quão insensível a humanidade pode ser. Dificilmente somos tocados, nos emocionamos, somos recíprocos. De todos que estavam na embarcação, apenas quatro aplaudiram-no – minha irmã puxou a salva de palmas.
Trocamos poucas palavras e, depois de tudo, ao ver aquele moço se despedir, senti-me mal por não ter apertado em sua mão e ter demostrado a gratidão sentida. Só queria dizer obrigada, desconhecido moço, por me abrir os olhos e ter me feito imensuravelmente bem. Obrigada por tocar minha alma.
Desejo que, não apenas neste novo ano que acabou de iniciar, tenhamos sensibilidade para captarmos e valorizarmos a beleza das pequenas coisas vivenciadas, pois elas podem sim ser o diferencial para alcançarmos a tão almejada felicidade.


(Luzitânia Silva)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

MOÇA



 Ei, moça, ele já foi. Pegou uma mochila, jogou algumas peças de roupas surradas dentro e se mandou. Levou consigo sonhos, histórias vividas, sentimentos latentes, alguns trocados no bolso e uma mente com pensamentos incógnitos.   O rosto não esboçava emoção (me pareceu, não deu para ver). Seus cabelos bem cortados e seu meio sorriso de outrora não chamaram minha atenção. Sabe-se lá se permanece imutável. Só tenho olhos para você, moça.
Moça, respire, acalme-se, ele já passou pela porta. Escutou a batida forte? E os murmurinhos? Então, ele se foi. Não se preocupe mais. Não agora. Ele está na estrada. Ouviu o ronco do motor?
Tem gente lá fora, percebe? Sei lá, os ânimos estão um pouco alterados ou as vozes estão confusas? Não tenho ideia, moça, só quero olhar para você. Saia daí desse chão frio, pode ficar resfriada. Levanta, vai, tenha forças! Não vá se perder olhando a janela depois, com pesar. Também não se confunda com um móvel de sua casa. Toma uma atitude, grita, sei lá. Pode chorar, moça: de alegria, por favor.
Imagino como deve ser difícil para você estar aí, desse jeito, sozinha, mas pense bem, talvez seja melhor. Ele seguiu seu rumo, saiu sem dizer adeus, contudo deixou marcas, não foi?
Quer uma água? Não consigo olhá-la desse jeito sem poder fazer nada, entende meu lado? Seu olhar e pensamentos estão longe... Preocupo-me com você.
Tá doendo? Seu coração parece que vai saltar pela boca. Não se aflija. Levanta daí! Acho que um dia vai passar, não vai? É assim mesmo, não é?
Moça, tem um corte em seu braço, repara. Não. São dois, três, quatro... perdi a conta. Seu sangue escorre (só agora percebi!).
Olha para mim? Seu olhar está longe, fixo em algo que não sei dizer. Nem pisca. Sua pele está gélida.
Não creio, moça, que vai partir assim. E seus anseios? E a casa que acabou de adquirir? E a faculdade que concluiu? E o sonho de viajar pelo mundo? Suas aspirações foram engavetadas, moça, e agora não há mais o que fazer. Vá em paz.


(Luzitânia Silva)

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A moça e o homem estranho

Era 22 de março de 2008. Um sábado. A moça acordou cedo e foi trabalhar. Dia estafante. Chegou tarde em sua casa, contudo ela resolveu aproveitar a noite. A cidade estava em festa e, na semana seguinte, ela propendia se despedir, pois havia conseguido obter nota suficiente para ingressar numa universidade federal. Foi a primeira de uma família numerosa a alcançar tal feito. 
Seu semblante era alegre, mesmo estando exausta. Trabalhara em pé o dia todo. Malmente se alimentou. As pernas latejavam. Marcou com uma amiga, escolheu um vestido leve, um pouco acima dos joelhos, selecionou uma sandália de salto confortável e saiu para se divertir. Lá, encontrou outros amigos e familiares, dançou e espaireceu. 
Não passou muito tempo e seu pai chamou-a para irem para casa. Ela, preocupada em encontrar alguém confiável para levar sua amiga que morava distante, mesmo seu corpo desejando descanso, preferiu ir em seguida, afinal, residia muito próximo ao local da festa.
Não demorou trinta minutos. Misturou-se a um grupo de pessoas que também retornava e seguiu adiante. Olhou para trás. Havia um moço caminhando de modo estranho. Ela seguiu seu caminho, agradecida por haver mais gente. 
Numa esquina, ela um pouco mais a frente, viu as pessoas seguirem um rumo díspar do seu. Uma aflição tomou conta de si. Resolveu apressar o passo. Num rompante, olhou para trás. Apenas ela e o homem estranho caminhavam naquela rua deserta. Havia certa distância, porém sentia em seu íntimo a necessidade de correr. 
Suas pernas doíam e tremiam tanto! Abaixou-se, retirou a sandália, contudo não havia mais para onde fugir. O homem estranho, que estava a metros de distância, a alcançou num piscar de olhos, a segurou firme, colocou a mão direita em sua boca e a ameaçou de morte. Ela tentou se defender, entretanto ele se esquivava e começou a arrastá-la pelos cabelos para uma rua ainda mais deserta e perigosa, enquanto ela tentava gritar.  Seus gritos trépidos eram praticamente inaudíveis.  
Passados alguns instantes, ouviu-se uma voz masculina, ao longe, ordenando ao homem soltar a moça. Outras vozes se misturaram. Ele correu. 
A moça, com tufos de cabelos arrancados, rosto machucado, segurando uma alça do vestido já descosturada, conseguiu entrar em sua casa sem que o pior ocorresse, graças a ajuda dos vizinhos.
Durante dias, foi o assunto da cidade. Inúmeras eram as versões da história:
- Deu ousadia!
- Também, com aquele vestido!
- Se fosse eu, tinha batido!
- Foi o namorado!
- Isso que dá arrumar homem estranho em festa!
- Bem feito!
- Não se deu o respeito!
- Claro que ela sabe quem é. Eu reconheceria!
No final das contas, a vítima foi considera culpada pelos juízes de plantão. Toda sua dor era reverberada a todo o momento ao notar os olhares de culpa e de pena.  Seu coração sangrava e poucos eram os que realmente se importavam. Ela virou estatística e sabia que, infelizmente, não foi a única e nem seria a última.


Luzitânia Silva

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

ELEIÇÕES


(Luzitânia Silva)


Em meio a gritos, xingamentos, estresses, acusações, polêmicas, desejos de mudança, atentado, dancinhas, miscelânea de candidatos (treze, no total), incertezas, manifestações, gritos e pontapés, está chegando o dia da eleição de presidenciáveis da República Federativa do Brasil. Não só de presidenciáveis, diga-se de passagem, mas também de deputados nos níveis estaduais e federais, senadores e governadores.
Não sou cientista política, estudiosa da área, mas como cidadã que, obrigatoriamente (e curiosamente), nesta democracia, deve votar, imagino esta eleição como marcante para história do nosso país, e salvo engano, com dois lados antagônicos fortemente evidenciados: o de Luís Inácio Lula da Silva e o de Jair Messias Bolsonaro. Perdoem-me os demais candidatos e seus respectivos fiéis eleitores, mas nesta, por enquanto, os dois têm se sobressaído.
O primeiro, diga-se de passagem, um então presidiário, ex-presidente da República que, após toda a instabilidade da candidatura, foi compelido a ceder o lugar para o então vice, Fernando Haddad.
O segundo (e polêmico), talvez pelo nome do meio, tem sido visto, por alguns, como um ser miraculoso, capaz de salvar a pátria, apesar do seu estilo, no mínimo, peculiar. Ambos endeusados, amados e igualmente odiados.
Nesta seara de candidatos, em meio à ideia pífia de mortadelas e coxinhas, esquerdopatas e bolsominions, medo, discursos raivosos e rejeições, tenho observado uma cegueira coletiva e muita gente estupefata. Grandes amizades, como sempre, em virtude da política partidária, vêm sendo destruídas e a propagação de ódio toma conta das redes sociais e do cotidiano das pessoas. Simplesmente parece que perdemos a compostura, a razão, a sensatez, o poder de ver o que está defronte aos nossos olhos. E o pior, por candidatos, no mínimo, controvertíveis.
Com a ausência de um presidenciável e um vice, a meu ver, bons o suficiente para trazer melhorias a toda população brasileira, especialmente a menos favorecida, fico ansiando para que haja a escolha menos problemática possível e nós, devidamente desarmados de preconceitos, de coadjuvantes, passemos a ser, de fato, os protagonistas desta nossa história que está longe de terminar.

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. (Martin Luther King)




segunda-feira, 6 de agosto de 2018

OUSE OUSAR



Ouse!
Por mais que seus anseios pareçam loucos, se valem a pena, não deixe de tentar colocá-los em prática. Caso haja dúvidas, indubitavelmente, tente. Ouse ousar.
Ouse ouvir o canto dos pássaros, visitar amigos, deliciar-se consigo, cozinhar algo extraordinário para si, dançar na chuva, viajar, sorrir, abrir os braços para sentir o vento, plantar uma árvore, brincar, abraçar alguém, fazer seus hobbies, escrever um livro, vestir aquela roupa estranha para os outros e incrível para você.
Não deixe de ousar!
Voe! Aprenda algo diferente, arrume-se para você, não se sujeite a nada que te faça infeliz. Mude de direção quando preciso for, não permaneça onde não te cabe, onde o desconforto seja existente.
Segue teu rumo, moça (o)! Olha para frente, mas não se esqueça de observar quem está ao seu lado ou atrás... Você precisa traçar seus caminhos com liberdade e estender as mãos. Não cometa o engano de se achar autossuficiente a ponto de acreditar que não depende/dependerá de ninguém.
Escute quem te quer bem, contudo tome suas próprias decisões.
Ouse discordar (inclusive de mim)! Não há verdade absoluta. Tudo depende do ângulo observado.
Seja responsável, correto, entretanto não se martirize ao cometer algum deslize. Relaxe, somos humanos.
Seja grato!
Gratidão pode ser a mola propulsora necessária para a engrenagem de sua vida. Aliada à positividade, você certamente colherá excelentes frutos. Vai por mim, ser negativo pode trazer malefícios incomensuráveis a sua vida.
Ouse amar!
Primeiro a si mesmo. O autoamor é primordial. É aquela máxima: “quem não se ama, como amará outro alguém”?
Ouse ser aprazível, cultivar e demonstrar sentimentos bons.
Ouse se olhar em frente ao espelho e perguntar: “O que fiz, o que estou fazendo e o que farei de minha vida?”. Reflita o máximo possível, escreva num papel e trace estratégias para realizar os objetivos esperados.
Acredite em você! Você tem potencial, lapide-se.
Cometa loucurinhas saudáveis de amor. Isto pode ser interessante para estreitar ainda mais os laços de afeto num relacionamento.
Ouse ousar e viva!
Você não veio ao mundo tão somente para existir.
A vida é um sopro: Aproveitemo-la infinitamente antes fim.



Luzitânia Silva

sexta-feira, 27 de julho de 2018

MEUS ERROS


(Luana Assis)

Estou dando mole. Eu sei. Nem precisa discorrer. Brinco com fogo e não tenho cautela. Cuidado! Vou me queimar. 

Amedrontada, por vezes, ainda assim, continuo a cometer os mesmos erros. É até esdrúxulo, paradoxal. Erros antigos cuja única mudança diz respeito aos envolvidos: sou figurinha carimbada. O contexto é quase imutável. 

Sem sibilar faço charme. Sorvo tua bebida, me deliciando ao te ver me deliciar. Acho graça e tiro onda. Rio alto. Subo no salto. Pisco e encanto. Deixo marcas vermelhas do meu batom no teu rosto e onde mais intenciono. O propósito de fato é abalar todas as estruturas possíveis. Jogo sem me atentar às regras criadas apenas para importunar minha inteligência.

Brinco de ludibriar alguém e saio iludida. Descaradamente sou santa até que provas contrárias sejam apresentadas contra mim. E não é difícil de achar. Deixo rastros diariamente para me incriminar enquanto rio, atrevida, até que a verdade antes esconsa venha à tona e as lágrimas escorram pelo meu rosto e eu culpe outrem pelos erros meus.

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