Era uma quinta-feira, o terceiro
dia do mês de janeiro. Um dia magnífico e ideal para um bom banho de mar.
Sentia-me atribulada com a volta para casa, afinal viver experiências é legal,
mas cansa que é uma beleza! Sem contar o risco eminente de acidentes, em
especial nesta época do ano.
Entrei numa embarcação e me
acomodei ao lado de meu filho e minha irmã, priorizando, mentalmente, os
pensamentos mais positivos possíveis e fazendo checklist das coisas que prometi
realizar no novo ano que acabara de iniciar.
Avistei um moço sentado um
pouco próximo a mim. Sorri por educação. Tratava-se de um argentino despojado,
com cabelos encaracolados, desgrenhados e esvoaçantes. Lembrava-me um hippie.
Quando a embarcação partiu,
ele começou a tocar sua flauta de forma desjeitosa, segundo o meu ouvido não
tão apurado. Repentinamente parou, guardou o pequeno instrumento, pegou seu
violão, se apresentou a todos os presentes e, com doçura, desejou a todos um
excelente ano novo e uma feliz vida. Fazendo uso de palavras afetuosas,
sobrelevou a importância do amor, de viver os momentos intensamente. Com sua
alma aventureira, decerto entendia que dificilmente encontraria qualquer um de
nós novamente.
O musicista dedilhou em seu
instrumento uma canção argentina, saindo de sua boca palavras harmônicas e afáveis
que tocaram profundamente o meu coração – e foi perceptível para ele. Em meio à
música, ele parou por um instante e disse ter ganhado o dia por ter feito uma
mulher e um menino sorrirem. A mulher era eu e o menino meu filho. Enrubesci no
mesmo instante – meu filho também.
Em meio a tantas pessoas
(que pareciam não se importar, diga-se de passagem), pude notar o quão
insensível a humanidade pode ser. Dificilmente somos tocados, nos emocionamos,
somos recíprocos. De todos que estavam na embarcação, apenas quatro
aplaudiram-no – minha irmã puxou a salva de palmas.
Trocamos poucas palavras e,
depois de tudo, ao ver aquele moço se despedir, senti-me mal por não ter
apertado em sua mão e ter demostrado a gratidão sentida. Só queria dizer
obrigada, desconhecido moço, por me abrir os olhos e ter me feito
imensuravelmente bem. Obrigada por tocar minha alma.
Desejo que, não apenas neste
novo ano que acabou de iniciar, tenhamos sensibilidade para captarmos e
valorizarmos a beleza das pequenas coisas vivenciadas, pois elas podem sim ser
o diferencial para alcançarmos a tão almejada felicidade.
(Luzitânia Silva)
Nenhum comentário:
Postar um comentário